Imagine um mundo onde suas senhas, transações bancárias e dados pessoais estão blindados por uma segurança que nem o supercomputador mais potente do futuro conseguiria quebrar. Uma internet onde a palavra “hackear” se torna uma relíquia do passado. Parece ficção científica, mas um avanço recente na Alemanha acaba de nos colocar um passo mais perto dessa realidade. Em fevereiro de 2026, cientistas realizaram com sucesso um “teletransporte quântico” através da rede de fibra óptica de Berlim, um experimento que não apenas valida décadas de teoria, mas também acende o alerta para a maior revolução na segurança digital desde a criação da própria internet.
Enquanto a inteligência artificial domina as manchetes, uma transformação mais silenciosa e profunda está em andamento nos laboratórios de física e nos centros de dados das maiores empresas de tecnologia do mundo. A computação quântica, antes um conceito restrito aos corredores acadêmicos, está saindo da teoria para a prática, e suas implicações são imensas. Este não é apenas mais um avanço tecnológico; é uma redefinição fundamental das regras do jogo digital. Estamos à beira de uma era onde a comunicação pode ser intrinsecamente segura, mas também onde toda a criptografia que protege nosso mundo digital hoje pode se tornar obsoleta da noite para o dia. Este artigo mergulha no coração dessa revolução, explicando o que é a internet quântica, por que ela representa tanto uma promessa quanto uma ameaça, e como o Brasil precisa se preparar para o futuro que já está batendo à nossa porta.
O “Teletransporte” Quântico é Real (e Já Aconteceu em Berlim)
Vamos começar desmistificando o termo. Quando falamos em “teletransporte quântico”, não estamos nos referindo ao transporte de matéria como na série Star Trek. Ninguém está desmaterializando e rematerializando objetos. O que foi transportado foi algo muito mais sutil e, para o futuro da comunicação, infinitamente mais valioso: informação. Especificamente, o estado quântico de uma partícula.
Em uma colaboração histórica, a gigante de telecomunicações Deutsche Telekom (T-Labs) e a startup Qunnect conseguiram transmitir qubits (os bits quânticos, unidades básicas da informação quântica) por uma distância de 30 quilômetros através de cabos de fibra óptica comerciais já existentes em Berlim. O mais impressionante? Eles fizeram isso com uma fidelidade média de 90%, e os dados quânticos trafegaram em paralelo com o tráfego de internet convencional, sem interferência. [1]
A “mágica” por trás desse feito reside em um dos fenômenos mais bizarros e fascinantes da física: o entrelaçamento quântico. Albert Einstein o chamou de “ação fantasmagórica à distância”. Trata-se de uma conexão misteriosa entre duas ou mais partículas, onde o estado de uma afeta instantaneamente o estado da outra, não importa quão distantes estejam. Ao entrelaçar um par de partículas, é possível “ler” o estado de uma e, através de um canal de comunicação clássico, reconstruir esse estado exato em sua parceira distante. O estado quântico é, essencialmente, teletransportado.
O sucesso do experimento em Berlim, e de um teste similar conduzido pela Cisco em Nova York, prova que a tecnologia quântica pode operar fora do ambiente controlado de um laboratório, superando desafios do mundo real como vibrações, ruídos e variações de temperatura. “Nossa rede de fibra óptica está pronta para o quantum”, declarou Abdu Mudesir, executivo da Telekom. [1] A era da internet quântica começou oficialmente.
Por Que Isso Importa? A Promessa de uma Segurança Inviolável
A principal e mais imediata consequência de uma rede de comunicação quântica é a segurança. A criptografia quântica não é apenas “mais forte”; ela é fisicamente inviolável. Isso se deve a outro princípio fundamental da mecânica quântica: o ato de observar um sistema quântico inevitavelmente o altera.
Se um hacker tentar interceptar a chave quântica que está sendo transmitida, sua própria tentativa de medição perturbará os qubits. Essa perturbação é imediatamente detectável pelos destinatários legítimos, que descartam a chave comprometida e geram uma nova. Em suma, é impossível espionar uma comunicação quântica sem deixar um rastro. Isso tornaria obsoletas as técnicas de espionagem digital e garantiria um nível de privacidade sem precedentes para governos, empresas e cidadãos comuns.
Além da segurança, a interconexão de computadores quânticos distantes pode acelerar exponencialmente a pesquisa em áreas como inteligência artificial, desenvolvimento de novos medicamentos, modelagem climática e finanças. A capacidade de processar dados de forma distribuída em uma rede quântica abrirá portas para resolver problemas que hoje são considerados insolúveis. [2]
A Ameaça Quântica: O Fim da Criptografia Como a Conhecemos
Paradoxalmente, a mesma tecnologia que promete uma segurança perfeita também representa a maior ameaça à segurança existente. Toda a nossa infraestrutura digital atual — de senhas de e-mail a transações bancárias e segredos de estado — é protegida por algoritmos de criptografia como RSA e ECC. Esses sistemas baseiam sua segurança na dificuldade matemática de fatorar números muito grandes ou resolver problemas de logaritmo discreto. Para os computadores clássicos, mesmo os mais potentes, levaria bilhões de anos para quebrar essas chaves.
Para um computador quântico funcional, no entanto, essa tarefa seria trivial. Usando um algoritmo desenvolvido por Peter Shor em 1994, um computador quântico poderia quebrar a criptografia atual em questão de horas ou minutos. [3] Isso cria um cenário de risco conhecido como “Harvest Now, Decrypt Later” (Colete Agora, Decifre Depois). Agências de inteligência e grupos de hackers já podem estar armazenando grandes volumes de dados criptografados hoje, esperando o dia em que terão um computador quântico capaz de decifrá-los.
A ameaça não é mais teórica. Embora os computadores quânticos de hoje, com cerca de 100 a 124 qubits, ainda não sejam potentes o suficiente para essa tarefa, o progresso é rápido. A questão não é *se*, mas *quando* a criptografia atual se tornará vulnerável.
A Corrida pela Criptografia Pós-Quântica (PQC)
Diante dessa ameaça existencial, especialistas em cibersegurança de todo o mundo estão em uma corrida contra o tempo para desenvolver e padronizar novos algoritmos de criptografia que sejam resistentes a ataques tanto de computadores clássicos quanto quânticos. Essa nova fronteira é chamada de Criptografia Pós-Quântica (PQC).
O Instituto Nacional de Padrões e Tecnologia dos EUA (NIST) está liderando esse esforço global. Após um processo de competição que durou anos, o NIST começou a padronizar os primeiros algoritmos de PQC, como o Kyber. [4] Grandes empresas de tecnologia já estão se movendo. A Cloudflare, que gerencia uma parcela significativa do tráfego da internet global, e a Keeper Security, uma plataforma de gerenciamento de senhas, já anunciaram a integração de criptografia pós-quântica em seus sistemas para proteger os dados de seus clientes contra ameaças futuras. [4] [5]
A migração para a PQC é uma tarefa monumental, que exigirá a atualização de praticamente todos os sistemas de software e hardware do planeta. Segundo projeções, o mercado global de criptografia pós-quântica deve atingir quase 18 bilhões de dólares até 2034, refletindo a urgência e a escala desse desafio. [6]
O Futuro é Quântico e o Brasil Precisa Entrar no Jogo
A computação quântica está saindo da fase de hype para uma fase de consolidação e resultados concretos. Empresas já utilizam a tecnologia para otimizar portfólios financeiros, descobrir novos materiais e melhorar a logística. [2] A criação de hubs de tecnologia quântica, que integram universidades, empresas e governo, está se acelerando em países como Suíça e Argentina.
Para o Brasil, ignorar essa revolução não é uma opção. A dependência de sistemas de segurança que em breve se tornarão obsoletos coloca em risco a soberania digital do país, a segurança de seu sistema bancário (um dos mais digitalizados do mundo) e a proteção de dados garantida pela LGPD. É crucial que o Brasil invista em pesquisa, forme talentos e crie um ecossistema nacional de tecnologia quântica para não ficar para trás nesta que será uma das mais importantes transformações tecnológicas do século XXI.
A demonstração em Berlim não foi apenas um experimento bem-sucedido; foi um vislumbre de um futuro digital radicalmente diferente. Um futuro que pode ser muito mais seguro, mas que exige uma transição cuidadosa e urgente. A internet quântica não é mais uma promessa distante. Ela está sendo construída, qubit por qubit, e vai mudar tudo.
Referências
[1] Adrenaline. (2026, 20 de fevereiro). Teletransporte quântico é demonstrado em redes de fibra existentes com 90% de precisão. Recuperado de https://www.adrenaline.com.br/tech/teletransporte-quantico-fibra-90-precisao/
[2] Gizmodo Brasil. (2026, 23 de fevereiro). Computação quântica deixa o discurso futurista e começa a gerar resultados concretos em finanças e energia. Recuperado de https://www.gizmodo.com.br/computacao-quantica-deixa-o-discurso-futurista-e-comeca-a-gerar-resultados-concretos-em-financas-e-energia-44606
[3] O Globo. (2026, 20 de fevereiro). Bitcoin em xeque: computação quântica pode ‘quebrar’ a criptografia? Analistas divergem. Recuperado de https://oglobo.globo.com/economia/financas/noticia/2026/02/20/bitcoin-volta-a-cair-computacao-quantica-pode-quebrar-a-criptografia-analistas-divergem.ghtml
[4] The Quantum Insider. (2026, 25 de fevereiro). Keeper Security Integrates NIST-Approved Kyber Encryption. Recuperado de https://thequantuminsider.com/2026/02/25/keeper-post-quantum-cryptography-deployment/
[5] Cloudflare. (2026, 24 de fevereiro). Cloudflare Becomes the First and Only SASE Platform to Support Modern Post-Quantum Encryption. Recuperado de https://www.cloudflare.com/en-in/press/press-releases/2026/cloudflare-becomes-the-first-and-only-sase-platform-to-support-modern-post/
[6] Nasdaq. (2026, 19 de fevereiro). Post-Quantum Cryptography Migration Is Now a Trillion-Dollar Imperative. Recuperado de https://www.nasdaq.com/press-release/post-quantum-cryptography-migration-now-trillion-dollar-imperative-2026-02-19







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