DREX: O Fim do Real Digital? Por que o Banco Central Desligou o Projeto que Iria Revolucionar o Dinheiro no Brasil (e o que Vem Agora)
Introdução: A Notícia que Abalou o Mercado de Tecnologia Financeira
Imagine um futuro onde comprar um carro ou um imóvel é tão simples quanto fazer um Pix, sem a necessidade de cartórios, assinaturas em papel e toda a burocracia que conhecemos. Essa era a promessa do DREX, o ambicioso projeto do Banco Central para criar o Real Digital. No entanto, em uma reviravolta surpreendente no início de novembro de 2025, o Banco Central (BC) apertou o botão de “pause” e desligou a plataforma tecnológica que vinha sendo testada, colocando o futuro da moeda digital brasileira em um estado de incerteza. A notícia, que rapidamente se tornou um dos tópicos de tecnologia mais comentados no Brasil, levanta questões cruciais: foi o fim do Real Digital? Por que uma iniciativa tão promissora foi interrompida? E, mais importante, o que acontece agora com a digitalização do nosso dinheiro?
Nesta postagem, vamos mergulhar fundo na ascensão e na queda (temporária?) do DREX. Explicaremos o que era o projeto, os motivos técnicos que levaram à sua suspensão, o valioso legado que ele deixa para o mercado e o que podemos esperar para o futuro das finanças tokenizadas no Brasil. Se você se interessa por tecnologia, finanças e o futuro da economia, continue lendo para entender todos os detalhes por trás dessa decisão que vai impactar a forma como lidamos com o dinheiro nos próximos anos.
O que Era o DREX? Muito Além de uma Moeda Digital
Para entender o impacto da decisão do BC, primeiro é preciso compreender que o DREX não era apenas uma “versão digital do Real” ou uma criptomoeda como o Bitcoin. Tratava-se de uma CBDC (Central Bank Digital Currency), ou Moeda Digital de Banco Central. Na prática, isso significa que o DREX seria emitido e garantido pelo próprio Banco Central, mantendo a estabilidade e a segurança da nossa moeda, mas em um ambiente totalmente digital e programável.
A grande revolução do DREX não estava na moeda em si, mas na plataforma por trás dela. A ideia era criar um ecossistema baseado em tecnologia de registro distribuído (DLT, popularmente conhecida como blockchain) que permitiria a tokenização de ativos. Isso significa transformar bens e direitos – como imóveis, veículos, títulos de dívida e até commodities agrícolas – em representações digitais (tokens) que poderiam ser negociados de forma segura, instantânea e automática.
Imagine o seguinte cenário que o DREX possibilitaria:
Você decide comprar um carro usado. Em vez de ir ao banco, transferir o dinheiro, ir ao cartório, reconhecer firma e esperar dias pela transferência do documento, todo o processo ocorreria em segundos através de um contrato inteligente (smart contract). Ao transferir o valor em DREX para o vendedor, a propriedade do token do veículo seria automaticamente transferida para a sua carteira digital, sem intermediários, sem burocracia e com validade jurídica. Essa era a grande promessa: um “Pix dos serviços financeiros”, agilizando e barateando transações complexas.
O projeto, iniciado há quatro anos, contava com a participação de gigantes do setor financeiro e tecnológico, como Itaú, Bradesco, Nubank, Microsoft, Google e Visa, todos colaborando para testar e desenvolver soluções para o ecossistema do Real Digital.
A Reviravolta: Por que o Banco Central Desligou a Plataforma?
A decisão de desligar a plataforma do DREX, comunicada em uma reunião no dia 4 de novembro de 2025, pegou muitos de surpresa, mas sinais técnicos já apontavam para dificuldades. Segundo fontes que participaram do projeto e reportagens de veículos como a Forbes Brasil, a suspensão não foi por um capricho, mas por problemas técnicos graves na arquitetura escolhida.
Os principais motivos foram:
- Insegurança e Falta de Privacidade: A tecnologia testada, baseada no Hyperledger Besu (uma implementação da Ethereum Virtual Machine – EVM), não atingiu os rigorosos padrões de segurança e privacidade exigidos pelo Banco Central para uma plataforma que movimentaria a economia do país. Questões sobre como garantir o sigilo das transações sem comprometer a rastreabilidade para fins de combate à lavagem de dinheiro se mostraram um desafio complexo.
- Alto Custo Operacional: Manter uma rede blockchain com a robustez necessária para o sistema financeiro nacional se provou excessivamente caro com a tecnologia atual.
- Problemas de Escalabilidade: A plataforma não demonstrou capacidade de processar o volume gigantesco de transações que seriam esperadas em um país como o Brasil, arriscando lentidão e falhas.
Em resumo, o BC concluiu que o desenho da arquitetura era inviável com as restrições atuais. A mensagem foi clara: a tecnologia deve servir ao modelo de negócio, e não o contrário. Por isso, a autarquia decidiu recomeçar, focando primeiro em definir os casos de uso e as necessidades do mercado para, só então, escolher a tecnologia mais adequada – que pode ou não ser blockchain.
O Legado do DREX e o Futuro da Tokenização no Brasil
Apesar do banho de água fria, o desligamento da plataforma não significa a morte do sonho de um sistema financeiro mais eficiente. Pelo contrário, os quatro anos de desenvolvimento do DREX deixaram um legado inestimável: o conhecimento e a experiência em tokenização de ativos.
A Associação Brasileira de Bancos (ABBC) destacou que, mesmo com o fim do ambiente de testes, os bancos associados agora possuem a tecnologia e o know-how para tokenizar ativos em outras redes. O setor privado, que participou ativamente do piloto, não está parado. Iniciativas como a da Anbima (Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais) para a digitalização de ativos mostram que o mercado continuará avançando, com ou sem a tutela direta do BC no curto prazo.
Além disso, o vácuo deixado pelo DREX pode abrir um caminho ainda maior para as stablecoins, criptomoedas pareadas a moedas fiduciárias (como o dólar ou o real). Dados recentes mostram que cerca de 90% das moedas digitais em circulação no Brasil já são stablecoins, indicando uma demanda massiva por ativos digitais estáveis para transações e investimentos.
O que isso Significa para Você?
Para o cidadão comum, a pausa no DREX significa que a revolução dos serviços financeiros programáveis pode demorar um pouco mais para chegar de forma oficial. A compra de um imóvel com a simplicidade de um Pix ainda está no horizonte, mas talvez não para 2026 como se previa.
No entanto, a decisão do Banco Central pode ser vista como um sinal de maturidade e prudência. Em vez de lançar uma solução cara, insegura e pouco eficiente, a autoridade monetária preferiu recalcular a rota para garantir que, quando o Real Digital finalmente for lançado, ele seja robusto e confiável.
Conclusão: Um Fim que é um Recomeço
O desligamento da plataforma do DREX não é o fim do Real Digital, mas sim o fim do primeiro capítulo de sua história. O projeto, que estava em alta nas pesquisas e na mídia, tropeçou em desafios tecnológicos complexos, mas seu legado de conhecimento em tokenização já está impulsionando o mercado financeiro privado. A mensagem final do Banco Central é inequívoca: a inovação não pode atropelar a segurança. Agora, a expectativa se volta para os próximos passos da autarquia e para a criatividade do setor privado, que certamente não vai esperar para construir o futuro digital do dinheiro no Brasil. O sonho de um sistema financeiro mais ágil e menos burocrático não morreu; ele apenas mudou de rota.
Referências:
- Forbes Brasil – “Banco Central Abandona o Blockchain do Drex, o Projeto do Real Digital” (04/11/2025)
- Exame – “Drex será desligado, mas deixa legado de tokenização, segundo a ABBC” (05/11/2025)
- Banco Central do Brasil – Página oficial do Drex
- Valor Econômico – “BC decide desligar plataforma do Drex” (04/11/2025)
- Folha de S.Paulo – “BC desidrata Drex e adia moeda digital” (04/11/2025)







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